


O Monitor do Debate Público (MDP) acompanha, semana a semana, como diferentes segmentos do eleitorado brasileiro reagem a temas importantes da agenda pública. A análise se apoia no Painel de Monitoramento de Tendências (POMT), metodologia desenvolvida pela equipe do LEMEP (IESP-UERJ) que opera por meio de grupos focais contínuos no WhatsApp, com participantes selecionados e moderação profissional.
Para o ano eleitoral de 2026, renovamos o quadro de participantes e ampliamos de cinco para seis o número de grupos focais contínuos no WhatsApp. O antigo grupo de eleitores flutuantes deu lugar a dois grupos de indecisos — conservadores e progressistas. Na maioria das eleições, os indecisos cumprem papel decisivo: por serem mais propensos a mudar de opinião, com frequência definem o resultado.
O projeto conta com 50 participantes, distribuídos em grupos com as seguintes características:
BC – Bolsonaristas Convictos: votaram em Bolsonaro no segundo turno de 2022, pretendem votar em Flávio Bolsonaro em 2026, desaprovam o atual governo e aprovam os atos de 8 de janeiro.
BM – Bolsonaristas Moderados: votaram em Bolsonaro no segundo turno de 2022, desaprovam o atual governo e desaprovam os atos de 8 de janeiro.
IC – Indecisos Conservadores: votaram em Bolsonaro ou em branco/nulo no segundo turno de 2022, estão indecisos quanto ao voto de 2026 e se posicionam mais à direita na escala ideológica.
IP – Indecisos Progressistas: votaram em Lula ou em branco/nulo no segundo turno de 2022, estão indecisos quanto ao voto de 2026 e se posicionam mais à esquerda na escala ideológica.
LD – Lulodescontentes: votaram em Lula no segundo turno de 2022 e reprovam a atual gestão, mas ainda assim pretendem votar em Lula em 2026.
LL – Lulistas: votaram em Lula no segundo turno de 2022, pretendem votar em Lula em 2026 e aprovam a atual gestão.
Evangélicos: grupo virtual formado pela agregação das falas dos participantes evangélicos dos demais grupos, com o objetivo de captar tendências específicas desse contingente demográfico.
Todos os grupos foram compostos de modo a reproduzir, em proporções próximas às da população brasileira, variáveis como sexo, idade, cor/raça, renda, escolaridade, região de moradia e religião.
Nossa metodologia permite que os participantes respondam aos temas no momento que lhes for mais conveniente — liberdade inexistente nos grupos focais tradicionais, presos à sincronia do roteiro conduzido pelo mediador. Ao se acomodar à rotina de cada participante, o instrumento reduz a artificialidade da coleta e gera resultados mais próximos das interações reais do cotidiano.
Cabe salientar que os resultados derivam de metodologia qualitativa, voltada à análise de narrativas, argumentos e opiniões. Ainda que eventualmente quantificados, não possuem validade estatística: devem ser lidos como dado indicial.
O sigilo dos dados pessoais dos participantes é integralmente garantido. Todos consentiram previamente com a divulgação dos resultados, desde que preservado o anonimato.

| Bolsonaristas Convictos (BC) | Bolsonaristas Moderados (BM) | Indecisos Conservadores (IC) | Indecisos Progressistas (IP) | Lulodescontentes (LD) | Lulistas (LL) | Evangélicos | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Declarações de Michele | Predominou a defesa de Michelle e a avaliação de que Flávio errou ao desrespeitá-la, embora a maior parte dos participantes tratasse o episódio como um simples conflito familiar. Para a maioria, o episódio não alterou a opinião favorável que já tinham sobre Flávio. | Prevaleceu a percepção de que a exposição pública do conflito foi prejudicial e motivada, ao menos em parte, por interesses políticos. As declarações reforçaram avaliações parcialmente críticas sobre Flávio, mas raramente provocaram uma mudança significativa de opinião. | Muitos consideraram legítima a manifestação de Michelle, mas defenderam que esse tipo de problema deveria ter sido resolvido de forma reservada. Para a maioria, as declarações apenas reforçaram opiniões já contrárias a Flávio Bolsonaro. | Os participantes interpretaram o episódio como mais uma demonstração das contradições da família Bolsonaro. As declarações reforçaram opiniões já contrárias a Flávio Bolsonaro e, em vários casos, à própria família. | Predominou a avaliação de que o conflito expunha disputas de poder e interesses eleitorais dentro da família Bolsonaro, sem alterar substancialmente as opiniões já contrárias a Flávio Bolsonaro. | Os participantes interpretaram a manifestação de Michelle principalmente como uma estratégia política pessoal. As declarações reforçaram opiniões já contrárias a Flávio Bolsonaro e, de forma mais ampla, à família Bolsonaro. | Os participantes elaboraram suas respostas alinhados a seus grupos de pertencimentos. |
| Negociação de Flávio com EUA | A avaliação foi majoritariamente positiva, interpretando a iniciativa como demonstração de preparo e oportunidade para fortalecer as relações econômicas com os Estados Unidos. O apoio, contudo, apareceu condicionado à geração de benefícios concretos para o Brasil. | As respostas foram marcadas por cautela e críticas à proposta, sobretudo pela preocupação de que ela pudesse comprometer a soberania brasileira e ampliar a influência dos Estados Unidos sobre o país. Mesmo entre os que admitiram possíveis benefícios econômicos, prevaleceu a defesa dos interesses nacionais. | O grupo apresentou uma posição ambivalente, mas fortemente permeada pela desconfiança em relação aos Estados Unidos e aos riscos da proposta para a soberania brasileira. Foi recorrente a percepção de que o Brasil poderia sair prejudicado nas negociações. | A proposta foi amplamente interpretada como uma demonstração de submissão aos interesses norte-americanos e de priorização dos interesses políticos de Flávio Bolsonaro em detrimento dos interesses do Brasil. Também surgiram críticas ao fato de assumir esse tipo de compromisso antes mesmo de ser eleito. | As manifestações concentraram-se na avaliação de que a iniciativa ameaçava a soberania nacional e abria espaço para interferência dos Estados Unidos nas decisões brasileiras. A proposta foi considerada incompatível com uma política externa orientada pelos interesses do país. | A rejeição foi praticamente unânime, sendo a proposta interpretada como uma traição aos interesses nacionais e uma contradição do discurso patriótico do bolsonarismo. O episódio reforçou percepções negativas já existentes sobre Flávio Bolsonaro e sua família. | Os participantes elaboraram suas respostas alinhados a seus grupos de pertencimentos. |
| Falas de Paulo Figueiredo | Predominou a rejeição às falas de Paulo Figueiredo, vistas como prejudiciais ao campo da direita e à candidatura de Flávio Bolsonaro, acompanhada da defesa de um rompimento com o influenciador. Também prevaleceu cautela quanto à suposta articulação, com expectativa de que Flávio se distanciasse do episódio. | Houve forte condenação às declarações machistas de Paulo Figueiredo e avaliação de que elas afastam o eleitorado feminino. A suposta combinação entre ele e Flávio Bolsonaro também foi vista de forma negativa, por transmitir preocupação com a imagem em vez de arrependimento. | Predominou a percepção de que as falas foram misóginas e politicamente desastrosas, reforçando o desgaste do bolsonarismo junto às mulheres. Também prevaleceu a leitura de que a desautorização pública pode ter sido uma estratégia eleitoral para conter danos. | As falas foram amplamente rejeitadas por desqualificarem a autonomia política das mulheres e reforçarem posturas machistas. A suposta articulação foi interpretada como tentativa de preservar a imagem de Flávio Bolsonaro diante da repercussão negativa. | Predominou a avaliação de que as declarações expressam desrespeito às mulheres e aprofundam o desgaste eleitoral de Flávio Bolsonaro. Também foi recorrente a percepção de que a desautorização pública integrou uma estratégia para minimizar os danos políticos. | As falas foram interpretadas como confirmação de valores machistas atribuídos ao bolsonarismo e à extrema direita, sendo amplamente repudiadas. Também prevaleceu a avaliação de que a resposta pública de Flávio Bolsonaro foi uma manobra política para tentar conter a crise de imagem. | Os participantes elaboraram suas respostas alinhados a seus grupos de pertencimentos. |

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) publicou um depoimento nas redes sociais em que diz ter sido maltratada e humilhada por Flávio Bolsonaro, escolhido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro como candidato à Presidência nas eleições de outubro. Em dois vídeos, Michelle expõe uma briga com Flávio e diz que eles não se falam desde o fim de 2025. O desabafo gerou grande repercussão nas redes sociais e indicou a existência de uma disputa interna pelo protagonismo no PL para as eleições.
O que acham da posição da Michelle? Isso muda a opinião de vocês sobre Flavio Bolsonaro?"

Predominou, entre bolsonaristas convictos e moderados, a percepção de que a principal consequência do episódio foi o desgaste político provocado pela exposição pública do conflito. Mais do que discutir quem estaria certo ou errado, os participantes demonstraram preocupação com os efeitos da disputa para a imagem da direita e para a coesão do grupo às vésperas das eleições. Em ambos os segmentos, apareceu a expectativa de que divergências familiares e partidárias deveriam ter sido tratadas de forma reservada, evitando alimentar conflitos que poderiam beneficiar adversários políticos e enfraquecer o projeto eleitoral do campo conservador.
Os participantes tenderam a evitar julgamentos definitivos, ressaltando a necessidade de conhecer melhor os fatos ou de ouvir todas as versões antes de formar uma opinião. Em suma, o episódio foi interpretado como um problema pontual de gestão política.
"Deu um nó na cabeça, não sei o que isso significa e qual intenção real por tras do video, mas acho que é apenas uma briga de família." (BC, 30 anos, engenheiro, SP)
"Importante a explicação dela. Tem um posicionamento muito claro. Peço ao bom Deus que esse mal entendido desapareça, e se desculpem, não é hora de brigas familiares terem prioridade, família unida faz bem a todos." (BC, 47 anos, administradora, BA)
"Bom dia, na minha opinião, esse tipo de exposição pública acaba desgastando a imagem de todos os envolvidos. Parece que, em vez de resolver a situação, eles acabam se queimando e gerando ainda mais conflitos. Acho que essas questões deveriam ser resolvidas de forma mais reservada." (BM, 42 anos, gerente de vendas, MG)
"Eu acho que eles estão se esquecendo do PROJETO PRINCIPAL: 'TIRAR O PT E SEUS ASSECLAS DO PODER'. Essa briga interna, era para eles se aguentarem até depois das eleições (...) o Brasil está no limiar de quebrar (...) qualquer deslize, a esquerda novamente irá continuar no poder." (BM, 53 anos, eletrotécnico, RN)

Entre os dois grupos de indecisos, predominou a interpretação de que o episódio extrapolava um conflito estritamente familiar e revelava uma disputa por protagonismo e espaço político dentro da família Bolsonaro e do PL. Em ambos os segmentos apareceu a percepção de que a divulgação do vídeo atendia, ao menos em parte, a interesses eleitorais de Michelle Bolsonaro, sendo compreendida como um movimento estratégico em meio à definição das lideranças da direita para as próximas eleições. Também foi recorrente a avaliação de que o conflito poderia gerar desgaste para Flávio Bolsonaro, ao tornar públicas divisões que antes permaneciam restritas ao ambiente interno da família.
A principal diferença entre os grupos esteve na forma como interpretaram os efeitos desse episódio. Entre os indecisos conservadores, predominou uma postura mais cautelosa, na qual o conflito foi percebido como confirmação das disputas internas, mas sem alterar substancialmente as opiniões já existentes sobre os envolvidos. Já entre os indecisos progressistas, o caso foi interpretado como mais uma evidência das incoerências atribuídas à família Bolsonaro, reforçando avaliações negativas previamente consolidadas e ampliando a percepção de desgaste da imagem pública de Flávio Bolsonaro.
"É uma brigas de ego, disputa política em família, mas acho que Michele tem razão, mas é o mundo da politicagem, hoje briga aqui, amanhã esquece e faz aliança, são estratégias. Flavio pode ser sim prejudicado por isso e por outras falas sobre Michele, tanto que já fez um vídeo se desculpando com ela." (IC, 38 anos, coordenadora, SP)
"Eu vejo esse episódio como mais uma demostração de como essa família não é inteligente e ao invés de se unirem, brigam e dividem atenção (...) foi exposto talvez para criar um clima de desconforto na pré campanha do Flávio." (IC, 24 anos, estudante, MA)
"Não é novidade alguma que Michele e os enteados se odeiam. (...) Michele foi anteriormente pensada em concorrer. O vídeo, para mim, já parece uma campanha eleitoral para próximos cargos que ela concorrerá." (IP, 32 anos, dentista, SP)
"Pra mim pega mal sim. Se até gente da própria família tá expondo esse tipo de coisa, alguma coisa errada tem. Isso só passa a impressão de que o discurso de união é só pra câmera. Minha imagem do Flávio só piora..." (IP, 28 anos, customer care analyst, SP)

Nos grupos mais próximos do campo governista, predominou a percepção de que as declarações de Michelle Bolsonaro não trouxeram informações capazes de modificar as opiniões dos participantes sobre Flávio Bolsonaro ou sobre a família Bolsonaro como um todo. Em ambos os segmentos, o episódio foi interpretado como confirmação de avaliações negativas já consolidadas, reforçando críticas relacionadas ao caráter, à coerência do discurso familiar e às disputas internas pelo poder. Assim, a repercussão do caso esteve menos associada à revelação de novos fatos e mais à validação de percepções anteriormente estabelecidas.
Também foi recorrente a interpretação de que a manifestação de Michelle possuía objetivos políticos e eleitorais. Os participantes reconheceram que sua exposição poderia estar relacionada à construção de um projeto político próprio ou à tentativa de ampliar seu protagonismo dentro da direita. No entanto, essa leitura não produziu maior simpatia por sua figura nem alterou as avaliações negativas dirigidas à família Bolsonaro. Ao contrário, predominou a percepção de que o episódio evidenciava uma reorganização interna das lideranças do grupo, motivada por interesses eleitorais e por disputas de poder.
"Esse episódio só reforçou a imagem negativa que eu já tinha dele. Não mudou minha opinião, apenas confirmou o que eu pensava." (LD, 27 anos, entregadora, RS)
"Eu até concordo com o ponto de vista dela como esposa em tomar as dores do marido (...) acredito também que ela está começando a querer trilhar o espaço dela no meio da política (...) acredito q isso seja para ganhar visibilidade e espaço nesse meio. Quanto ao Flávio, dele eu só espero o pior..." (LD, 29 anos, professora, RJ)
"Bom dia, Não muda minha opinião sobre o Flávio, o que foi falado sobre ele basicamente já é notório. (...) O objetivo de ela vir à público sobre isso agora já não sei, mas diria que tem relação com pretensões políticas da parte dela." (LL, 45 anos, professor, PB)
"Acho que ela está certa em vim trazer tudo isso a tona nesse momento, mas está bem claro que ela está fazendo isso pelos 'motivos errados' (...) está tentando trazer isso agora para tentar ganhar os votos de quem votaria no Flávio. Não muda a minha opinião sobre ele..." (LL, 27 anos, operador de telemarketing, BA)


Entre os bolsonaristas convictos, predominou uma avaliação favorável da iniciativa de Flávio Bolsonaro, interpretada como um sinal de planejamento, pragmatismo e disposição para acelerar futuras negociações internacionais. A aproximação com os Estados Unidos foi compreendida como potencialmente benéfica para o país, sobretudo em razão das expectativas de ampliação do comércio, atração de investimentos, fortalecimento da economia e geração de empregos. Também apareceu de forma recorrente a percepção de que estabelecer canais de diálogo antes da posse demonstraria preparo para governar e contribuiria para reduzir entraves burocráticos, permitindo que eventuais acordos fossem implementados com maior rapidez.
Apesar do apoio majoritário à proposta, as manifestações revelaram que esse respaldo esteve condicionado à defesa dos interesses nacionais. Os participantes enfatizaram que qualquer acordo deveria produzir benefícios concretos para o Brasil e preservar ganhos econômicos para o país, indicando preocupação com a reciprocidade das negociações. A visão amplamente positiva da aproximação com os Estados Unidos, foi frequentemente contraposta à política externa do governo atual, percebida como menos alinhada aos interesses brasileiros.
"Eu acho excelente essa aproximação, pois deve trazer muitos benefícios para o Brasil, desde o combate as drogas, segurança e até chegando ao crescimento econômico. O acordo, por enquanto, é só de intenção, mas demonstra boa vontade das duas partes, ao contrário de acordos atuais feitos com países e ditadores da esquerda em vários países. Só essa demonstração de disposição de se aproximar do Estados Unidos já vale um voto de confiança." (BC, 62 anos, cirurgião dentista, SP)
"Essa iniciativa do Flávio de adiantar os trabalhos com os Estados Unidos é uma excelente opção. Ele está sendo prático, quer cortar a burocracia e focar em resultados rápidos para nossa economia." (BC, 24 anos, enfermeira, GO)
"Eu não sabia dessa troca de cartas, ate então, mas sem duvidas nenhuma, eu vejo essa atitude de Flavio de forma muito positiva. Essa iniciativa mostra planejamento e vontade de acelerar o que for bom para o Brasil. Hoje nenhum país cresce isolado, então buscar uma aproximação com uma das maiores economias do mundo pode abrir portas para investimentos, comércio e geração de empregos. Claro que qualquer acordo precisa priorizar os interesses do Brasil, mas vejo essa postura como positiva e acredito que vale um voto de confiança." (BC, 47 anos, administradora, BA)
"Bem na minha concepção, o acordo comercial deve ser bom para o nosso país sempre independente de partidos ,etc, fazer um recepção dessa para outro país para que o mesmo utilize todos os nossos recursos não gerando lucro para nós não é viável, sei que é um pouco complicado pois ele detém o dinheiro mundial mas no mínimo esse acordo tem que se auto sustentar para gerar lucros para o nosso país o bom disso tudo é que conseguimos ver metodologia do EUA com outros países e todos eles estão melhorando, então se flavio virar presidente e isso realmente acontecer pode ter um fio de esperança nas nossas vidas porque infelizmente na altura desse campeonato político estamos a mercê deles, muitas pautas interessantes,que podem sim mudar a perspectiva do nosso país." (BC, 39 anos, administrador, RJ)

Entre os bolsonaristas moderados e os indecisos conservadores, predominou uma avaliação cautelosa e, em muitos casos, crítica à proposta de Flávio Bolsonaro. Embora alguns participantes tenham reconhecido que uma aproximação comercial com os Estados Unidos poderia produzir benefícios para o Brasil, esse apoio apareceu sempre condicionado à defesa dos interesses nacionais. Foi recorrente a percepção de que qualquer negociação deveria ocorrer com transparência, reciprocidade e preservação da soberania brasileira, revelando que o potencial econômico do acordo foi constantemente relativizado pelos riscos políticos envolvidos.
Também predominou, nos dois grupos, uma expressiva desconfiança em relação às intenções dos Estados Unidos e às consequências da iniciativa. Muitos participantes interpretaram que antecipar esse tipo de compromisso antes mesmo da eleição poderia ampliar a influência norte-americana sobre decisões brasileiras e colocar o país em posição de desvantagem nas negociações futuras. Além disso, apareceu a avaliação de que a proposta possuía um forte componente político e eleitoral, funcionando como um gesto voltado à obtenção de apoio externo mais do que à construção de um acordo efetivamente equilibrado para o Brasil.
A principal diferença esteve na ênfase das críticas: entre os bolsonaristas moderados, elas se concentraram mais na postura adotada por Flávio Bolsonaro, enquanto entre os indecisos conservadores ganharam maior destaque as preocupações com a assimetria das relações entre os dois países e com a possibilidade de interferência norte-americana nos interesses nacionais.
"Acho muito errado. Nós temos soberania e isso tem que ser respeitado. E se o governo atual fizesse isso com a China, o Flávio seria o primeiro a protestar. Os EUA não vai se limitar só a esses acordos e trocas e com certeza o Brasil vai sair perdendo." (BM, 41 anos, turismólogo, PE)
"Boa tarde, acho viagem demais do Flávio, se fosse o governo atual recorrendo a outro país ? seria maior murmuro, acho que na mente dele somente esses acordos será algo positivo para o Brasil mais não vejo dessa forma não" (BM, 33 anos, consultor de TI, SP)
"Boa noite, não sabia dessa troca de correspondência entre o candidato Flávio Bolsonaro e o secretário dos Estados Unidos, ao meu ver a atitude do candidato coloca a autonomia política do nosso país em cheque, pois vai dar abertura para que o governo de Trump faça alterações que beneficiam os Estados Unidos e que tenham liberdade em interferir nos nossos assuntos internos. Ele vai entregar o Brasil na mãos dos Estados Unidos de graça." (BM, 72 anos, pensionista, RJ)
"Não tinha conhecimento da troca de correspondência. Acho que é interessante mas, fico com receio pois não dá pra confiar nos EUA." (IC, 30 anos, maquiadora, RJ)
"Boa tarde, eu li notícias sobre essa troca de correspondências, e não gostei dessa proposta do Flávio, primeiro porque eles não gostam de sair perdendo, o Trump disse que a eleição do Brasil seria seu próximo desafio político não vai ser benéfico pra ambas as nações, ele vai fazer igual está fazendo na Argentina de Milei, igual está fazendo atualmente na Venezuela. Vão querer nossas terras raras, desmatar a amazônia, prejudicar o nosso Pix.
E já vamos começar nessa negociação devendo, porque nós já vamos estar devendo a eles a ajuda que eles vão dar pro Flávio ganhar as eleições." (IC, 30 anos, educador museal, RJ)
"Bom dia ! Não sabia da troca. Vejo dois lados: é positivo buscar parceria e ampliar comércio, mas tem que tomar cuidado — nunca abrir mão da soberania e dos interesses do Brasil. Qualquer acordo tem que ser vantajoso para nós também, sem atender só a vontade de fora." (IC, 30 anos, autônoma, SP)

Entre os indecisos progressistas, os lulodescontentes e os lulistas, predominou uma rejeição consistente à proposta de Flávio Bolsonaro de colocar uma futura equipe de transição à disposição dos Estados Unidos antes mesmo da eleição. A iniciativa foi amplamente interpretada como incompatível com a defesa da soberania nacional e como um gesto de subordinação aos interesses norte-americanos. Também apareceu de forma recorrente a avaliação de que acordos internacionais devem ser construídos a partir dos interesses brasileiros, preservando a autonomia do país e evitando qualquer tipo de interferência externa nas decisões nacionais.
Outro aspecto comum aos três grupos foi a percepção de que a proposta revelava prioridades políticas desalinhadas com os interesses do Brasil. Predominou a interpretação de que Flávio Bolsonaro buscava fortalecer seu próprio projeto político — ou o de sua família — ao estreitar relações com os Estados Unidos, além de críticas ao fato de assumir compromissos dessa natureza antes mesmo de uma eventual eleição. Entre os lulistas, em especial, o episódio foi incorporado como confirmação de percepções negativas já consolidadas sobre o bolsonarismo, reforçando críticas ao contraste entre o discurso patriótico do grupo e uma postura considerada excessivamente alinhada aos interesses norte-americanos.
"Acredito que seja mais uma tentativa entreguista e vira-lata de implorar apoio e intervenção dos Estados Unidos no Brasil. Novamente é um ato contra a própria pátria, na tentativa de blindar MAIS sua família. Está desesperado." (IP, 32 anos, dentista, SP)
"Kkkkk achei que antes de colocar a equipe à disposição dos EUA ele tinha que se colocar à disposição do povo brasileiro né? 😂 Parece mais preocupado em agradar governo de fora do que resolver os BO daqui. Patriotismo na campanha e 'estou à disposição' pros EUA na prática... nao sei como tem gente q leva esse cara a serio ainda" (IP, 28 anos, customer care analist, SP)
"Não tinha visto e pra mim isso é um absurdo. Quem quer governar o Brasil deveria priorizar os interesses do Brasil, não sair oferecendo a equipe de transição para negociar com outro país antes mesmo de vencer a eleição." (LD, 27 anos, entregadora, RS)
"Esse tipo de atitude do Flávio com os Estados Unidos me preocupa bastante, acho um absurdo ele agir dessa forma. Ele tem que entender que o Brasil é soberano e não podemos ficar dependendo as imposições dos EUA, tudo bem termos uma boa relação pq é importante, mas ele exagera e passa dos limites." (LD, 29 anos, professora, RJ)
"Totalmente absurdo, e ainda se autointitulam de 'patriotas'..., mais uma atitude de traição à nação e nossa soberania." (LL, 45 anos, professor, PB)
"Sabia sim. Eu vi na imprensa. Não é de se estranhar uma proposta dessas partindo de um Bolsonaro. Eles só se importam com eles mesmos. E estão dispostos a qualquer coisa pelo poder. Um absurdo que tem muita gente que ainda acredita neles e que estão dispostos a votar nessas pessoas que são verdadeiros inimigos do povo." (LL, 35 anos, analista sistemas, SP)


Nos dois grupos bolsonaristas, predominou uma rejeição clara às declarações de Paulo Figueiredo, consideradas inadequadas, desrespeitosas e politicamente prejudiciais. Porém, mais do que discutir o mérito da afirmação sobre o voto feminino, os participantes concentraram suas avaliações nos impactos eleitorais do episódio, entendendo que esse tipo de discurso afasta mulheres, fortalece críticas da oposição e produz desgaste desnecessário para a direita em um momento de pré-campanha. Também foi recorrente a percepção de que figuras públicas ligadas ao campo bolsonarista deveriam agir com maior responsabilidade para evitar declarações capazes de comprometer o desempenho eleitoral do grupo.
Em relação à suposta articulação entre Paulo Figueiredo e Flávio Bolsonaro, predominou a expectativa de que o senador rompesse publicamente com o influenciador e deixasse claro que esse tipo de posicionamento não representa sua candidatura. Ainda que os bolsonaristas convictos tenham demonstrado maior cautela ao avaliar a existência de um acordo entre ambos, prevaleceu nos dois grupos a avaliação de que qualquer associação com o episódio seria politicamente nociva.
"Falas estúpidas, pelo amor de Deus, acho incrível a facilidade que algumas pessoas possuem de falar merda. Não conheço esse influenciador e descordo do que ele disse! É bom o Flávio ficar longe desse tipo de pessoa para não prejudicar a candidatura." (BC, 22 anos, vigilante, RO)
"Esse sujeito precisa responder na justiça. É uma pessoa nitidamente um frustrado e joga seu recalque pro mundo assim falando essas bobagens cheias de ódio. Um coisa ruim. Flavio precisa urgentemente se afastar desse e de tantos outros que podem atrapalhar sua campanha, aliás não somente se afastar mas cortar totalmente qualquer tipo de relação. É isso, o Flávio tem que falar que este Figueiredo não representa a campanha dele e cortar toda a relação com este frustrado." (BC, 47 anos, administradora, BA)
"Achei a fala dele bem desnecessária e desrespeitosa.. ao invés de unir mais pessoas para votar, ele está é afastando.. isso gera um ponto negativo para o Flávio, caso ele realmente esteja envolvido nisso." (BC, 24 anos, enfermeira, GO)
"Bom dia....Na minha opinião, o que ele falou foi um absurdo. Não dá para generalizar e dizer que mulheres votam mal. Cada pessoa faz suas próprias escolhas, independentemente de ser homem ou mulher. E, se realmente combinaram uma forma de amenizar a repercussão, isso passa a impressão de que estavam mais preocupados com a imagem do que em reconhecer o erro. Acho que o respeito deve vir em primeiro lugar." (BM, 42 anos, gerente de vendas, MG)
"Boa tarde!! Foi um absurdo as falas do Figueiredo. Achei uma falta de noção e total despreparo. Quanto à estratégia de defesa dele foi um fracasso e dó piorou a situação tanto dele quanto do Flávio." (BM, 41 anos, turismólogo, PE)
"Não o conheço, mas é um completo idiota. O mínimo que esperaria é um pedido de desculpas por parte dos dois, se estavam em conluio." (BM, 29 anos, advogada, SP)

Entre os dois grupos de indecisos e os dois mais próximos do campo governista, predominou uma rejeição contundente às declarações de Paulo Figueiredo, interpretadas como machistas, misóginas e desrespeitosas às mulheres. Os participantes defenderam, de forma recorrente, a autonomia feminina para decidir seu voto, rejeitando qualquer tentativa de desqualificar a capacidade política das mulheres. Também apareceu a percepção de que esse tipo de discurso reforça desigualdades de gênero e tende a ampliar a rejeição ao bolsonarismo, especialmente entre o eleitorado feminino.
Em relação à suposta articulação entre Paulo Figueiredo e Flávio Bolsonaro, prevaleceu a avaliação de que a desautorização pública do influenciador fez parte — ou poderia ter feito parte — de uma estratégia para conter os danos provocados pela repercussão negativa das falas. Independentemente do grau de convicção sobre a existência desse acordo, os participantes interpretaram o episódio como expressão de oportunismo político e de preocupação com a preservação da candidatura, mais do que de um arrependimento genuíno. Entre os grupos mais próximos do campo governista, essa leitura também foi incorporada como confirmação de percepções negativas já existentes sobre o bolsonarismo e sua relação com as mulheres.
"Boa noite ... É uma fala machista e equivocada, sem razão nenhuma. E essa história de “combinar a desautorização” prova que foi só estratégia eleitoral, não arrependimento sincero.!" (IC, 30 anos, autônoma, SP)
"Eu recebi esse vídeo da minha esposa, ela ficou chocada, eu fiquei chocado. E essa articulação de resposta dos dois foi puramente política, porque no fundo é isso o que ele pensa, é isso que boa parte do eleitorado pensa, mas ele não ia concordar ou ficar quieto porque isso faz perder votos." (IC, 30 anos, educador museal, RJ)
"Comentário extremamente desnecessário, um país onde a maioria da população e do público eleitor são femininos, mais uma vez demonstra a falta de inteligência e articulação da ala bolsonarista e sua incompetência em formular propostas para cativar essa parcela do público, retirá-lo da pré campanha em uma medida pré combinado demonstra que é tudo ensaiado e pelo poder, sem projetos para o país." (IC, 24 anos, estudante, MA)
"Nenhuma surpresa. Flávio, Bolsonaros, a própria extrema direita em si é extremamente misogina... Após repercussão, próprio Figueiredo diz para Flavio 'fazer do limão uma limonada'... Flávio criticaria Figueiredo publicamente, para ganhar apoio com o voto feminino." (IP, 32 anos, dentista, SP)
"Achei que as falas de Paulo Figueiredo foram de baixo escalão... Acredito que se realmente tiver existido esse acordo entre os dois mostra o quanto o YouTuber e o candidato Flávio Bolsonaro são gananciosos e capazes de criar todo um teatro para mudar uma narrativa a seu favor." (IP, 46 anos, vendedora, RS)
"Ai gente, que vergonha alheia, só no mundinho deles que essa estratégia de campanha ajudaria em algo, na verdade ta ajudando a acabar com o resto da carreira do Flavio, ne?" (LD, 27 anos, entregadora, RS)
"Ridícula as falas deste homem... Paulo Figueiredo se incomoda apenas por acreditar que mulheres sequer deveriam votar... Flávio Bolsonaro apenas tem medo de perder o voto feminino." (LL, 25 anos, auxiliar fiscal, SC)
"Achei ridículo, classificar o voto feminino dessa forma é um ataque à dignidade e ao direito político da maioria do eleitorado brasileiro. Não duvido nada que Flavio tenha feito isso." (LL, 28 anos, vendedora, PA)

A análise das respostas por gênero evidenciou que o episódio mobilizou homens e mulheres de maneiras distintas. Entre as participantes, independentemente do posicionamento político, predominou uma leitura do caso como uma manifestação de machismo e desrespeito às mulheres. Foi recorrente a defesa da autonomia feminina para decidir o próprio voto, acompanhada da rejeição à ideia de que mulheres seriam menos capazes de compreender a política ou dependeriam da orientação de homens para fazer escolhas eleitorais. Em diversas respostas, as participantes recorreram à própria experiência e condição de mulher para contestar diretamente as declarações de Paulo Figueiredo, transformando o debate em uma defesa da capacidade política feminina.
Entre os homens, embora também tenha predominado a condenação às falas, a ênfase deslocou-se para suas consequências políticas. As respostas concentraram-se com maior frequência nos prejuízos eleitorais para Flávio Bolsonaro, nos impactos da repercussão negativa junto ao eleitorado feminino e na possibilidade de que a reação pública tenha sido parte de uma estratégia de comunicação para conter danos. Assim, enquanto as mulheres responderam prioritariamente ao conteúdo das declarações e ao seu caráter discriminatório, os homens tenderam a discutir seus efeitos sobre a disputa política.
"Falas estúpidas, pelo amor de Deus, acho incrível a facilidade que algumas pessoas possuem de falar merda. Não conheço esse influenciador e descordo do que ele disse! É bom o Flávio ficar longe desse tipo de pessoa para não prejudicar a candidatura." (BC, 22 anos, vigilante, RO)
"Boa tarde. Achei de um machismo sem tamanho. Eu não concordo. Na minha opinião tem PESSOAS que votam mal (homem e mulher), até porquê não é só mulher que vota no PT, tem homem também." (BM, 32 anos, gerente de vendas, PA)
"Nojento, generalizou as mulheres, que solteiras não sabem votar, casadas que imitam os maridos, desdenhou das feministas, que absurdo essa fala, poderia perder a conta. Não duvido que ouve uma articulação que foi exposta na tentativa de se safar, desse meio não duvido de mais nada." (IC, 38 anos, coordenadora, SP)
"Bom dia!!! O que se esperar de um Bolsonarista?? Eu não concordo de forma alguma que esse cara falou. Mulher sabe votar sim. O que ele quis dizer que mulher só vota bem se tiver um homem por trás pra auxiliar. Discordo. Sou casada a mais de 20 anos e nunca fui influênciada pelo voto do meu marido. Nós mulheres sabemos sim votar. E espero que Aparti de agora se unimos e não votamos mais em caras escrotos. Nós temos nossas opiniões sim,somos muito capazes,de distinguir o que e bom ou não." (IP, 43 anos, autônomo, MT)
"Achei o vídeo extremamente desagradável e machista. Não concordo com as falas dele, ainda mais quando dizem que as mulheres solteiras voltam pior do que as casadas, uma vez que as casadas são “alienadas” pela decisão do homem. Quanto a articulação do influencer e do Flávio, acredito q realmente tenha sido planejado, uma vez que o Flávio já está em baixa por conta das falas de Michele." (LD, 29 anos, professora, RJ)
"Achei ridículo, classificar o voto feminino dessa forma é um ataque à dignidade e ao direito político da maioria do eleitorado brasileiro. Não duvido nada que Flavio tenha feito isso. Como uma figura política que recorre a esse nível de oportunismo e desrespeito pode ser candidato à presidência do Brasil? Sem condições." (LL, 28 anos, vendedora, PA)

O episódio envolvendo Michelle e Flávio Bolsonaro foi interpretado de maneira distinta entre os grupos, mas produziu um ponto de convergência importante: para a maioria dos participantes, as declarações não alteraram significativamente as opiniões já existentes sobre os envolvidos. Mesmo entre esses participantes que atribuíram motivações eleitorais à sua manifestação, foi recorrente o reconhecimento de que Michele possuía legitimidade para expor sua versão dos fatos ou que ocupava uma posição politicamente mais favorável do que a de Flávio.
O episódio revela uma fissura dentro da base bolsonarista como um todo, e não ao longo da linha de gênero. Dois achados sustentam essa leitura. Primeiro, a divisão real apareceu entre os bolsonaristas convictos, que foram o grupo mais dividido: parte relevante deles, em vez de fechar fileiras com Flávio, passou a tratar Michelle como ativo político superior, por ser percebida como mais íntegra e potencialmente mais competitiva. Essa insatisfação com a candidatura de Flávio brota do próprio flanco à direita, não da oposição. Mas ela não é um fenômeno de mulheres: quem nos grupos de bolsonaristas projetou Michelle como presidenciável foram sobretudo vozes masculinas, ao passo que uma das críticas mais duras a ela – o vídeo como "drama para ganhar palco" – veio justamente de uma bolsonarista mulher.
Segundo, o recorte de gênero mostra o seguinte: mulheres e homens aparecem tanto entre quem defende quanto entre quem critica Michelle, e a variável que organiza apoios e rejeições segue sendo a ideológica. O que difere entre os sexos é o vocabulário, não o lado, pois as mulheres mobilizam uma chave relacional e de legitimação da voz de Michelle (o direito de falar, a defesa do marido, ouvir os dois lados), enquanto os homens operam numa chave estratégica, de disputa de poder e viabilidade eleitoral. Vale registrar ainda, contra a leitura intuitiva, que o enquadramento de Michelle como vítima de machismo partiu de homens, não de mulheres.
Já entre os grupos mais distantes do bolsonarismo, as falas de Michelle foram compreendidas principalmente como confirmação de percepções negativas previamente consolidadas sobre Flávio Bolsonaro e sobre a própria família. Nesses grupos, a manifestação de Michelle também foi vista como uma ação estratégica, relacionada à disputa por protagonismo político e às eleições.
A proposta de Flávio Bolsonaro para estabelecer acordos prévios com os Estados Unidos foi interpretada muito mais como um posicionamento sobre soberania nacional e relações internacionais do que como uma simples iniciativa de política comercial. A principal divergência esteve na avaliação de se a iniciativa representava justamente um esforço para fortalecer o país ou, ao contrário, uma demonstração de excessiva proximidade e subserviência em relação aos Estados Unidos.
Os bolsonaristas convictos foram o único segmento no qual predominou uma avaliação claramente favorável à proposta, compreendida como sinal de planejamento, pragmatismo e capacidade de acelerar negociações importantes para o desenvolvimento econômico brasileiro. Nos demais grupos, em intensidades diferentes, prevaleceram preocupações relacionadas à soberania nacional, à assimetria das relações entre Brasil e Estados Unidos e ao risco de interferência norte-americana em decisões estratégicas do país. Mesmo entre os bolsonaristas moderados e os indecisos conservadores, que reconheceram possíveis vantagens de uma aproximação comercial, predominou a percepção de que antecipar esse tipo de compromisso poderia colocar o Brasil em posição desfavorável nas negociações. Os participantes mais próximos de Lula interpretaram a proposta como evidência de subordinação de Flávio Bolsonaro a interesses estrangeiros e de distanciamento em relação aos interesses nacionais. Também foi recorrente a avaliação de que um pré-candidato não deveria assumir compromissos dessa natureza antes mesmo de ser eleito, por entenderem que isso enfraqueceria a autonomia do Brasil nas negociações internacionais. Para esses grupos, o episódio reforçou percepções já consolidadas sobre o bolsonarismo, frequentemente associado a uma postura contraditória entre o discurso de defesa da soberania nacional e a disposição de estreitar relações com os Estados Unidos em condições consideradas desfavoráveis ao país.
Na última questão da semana, observou-se uma convergência pouco comum entre os diferentes segmentos políticos. Independentemente do posicionamento ideológico, predominou uma rejeição contundente às declarações de Paulo Figueiredo, interpretadas como machistas, desrespeitosas e incompatíveis com a autonomia política das mulheres. As diferenças apareceram menos na avaliação das falas em si do que na forma como os participantes interpretaram suas consequências políticas. Entre os bolsonaristas, prevaleceu o esforço de dissociar Flávio Bolsonaro do influenciador, acompanhado da defesa de que o senador rompesse publicamente qualquer vínculo com ele para evitar prejuízos à candidatura. Já entre os indecisos e os grupos mais próximos do campo governista, o episódio foi amplamente incorporado como confirmação de percepções já existentes sobre o bolsonarismo e sua relação com as mulheres.
Também chamou atenção a recorrência da interpretação de que a desautorização pública de Paulo Figueiredo poderia ter feito parte de uma estratégia para conter os danos eleitorais provocados pela repercussão negativa das falas. Essa hipótese foi amplamente aceita ou considerada plausível entre os indecisos e os grupos governistas, sendo frequentemente associada à tentativa de preservar a imagem de Flávio Bolsonaro junto ao eleitorado feminino. Entre os bolsonaristas, embora também tenha predominado a preocupação com os custos eleitorais do episódio, a principal expectativa esteve voltada ao afastamento definitivo do influenciador, numa tentativa de preservar a candidatura e demonstrar que suas declarações não representariam a posição do senador.

O Monitor do Debate Público (MDP) é um projeto do Laboratório de Estudos da Mídia e da Esfera Pública (LEMEP), sediado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ (IESP-UERJ). Baseia-se no Painel de Monitoramento de Tendências (POMT), metodologia desenvolvida pela própria equipe.
O POMT permite monitorar de modo dinâmico a opinião pública e suas clivagens em torno de temas da agenda pública, preferências, valores e recepção de notícias, entre outros. Opera por meio de grupos focais contínuos no WhatsApp, com participantes selecionados e moderação profissional.
Como nos grupos focais tradicionais, o formato permite que o moderador aprofunde temas sensíveis, dificilmente acessíveis por pesquisas quantitativas ou questionários estruturados.
O caráter assíncrono, próprio da comunicação no WhatsApp, favorece respostas mais refletidas — vantagem tanto para a pesquisa social quanto para a eleitoral, já que o voto é também uma decisão que costuma exigir reflexão.
Sua continuidade temporal favorece situações deliberativas, em que cada participante é levado a elaborar suas razões em diálogo com as dos demais.
O celular é hoje o meio de comunicação mais acessível e disseminado. Por isso, participar dos grupos não exige computador nem que as pessoas interrompam suas atividades para interagir.
O MDP aplica o POMT à análise semanal do debate público brasileiro, segmentado em seis grupos de diferentes orientações ideológicas, da extrema direita à esquerda — recorte justificado por sua relevância demográfica no cenário atual.

Doutora em Ciência Política pelo IESP-UERJ. Coordenou o IESP nas Eleições, plataforma multimídia de acompanhamento das eleições de 2018. Foi consultora da UNESCO e coordenadora da área qualitativa em instituto de pesquisa de opinião e big data, atuando em campanhas eleitorais e pesquisas de mercado. Presta consultoria em desenho de pesquisa qualitativa e conduz moderações e análises de grupos focais e entrevistas em profundidade. Escreve no blog Legis-Ativo, do Estadão.
Mestre em Filosofia Política pela Unicamp e mestre e doutor em Ciência Política pela City University of New York (Graduate Center). Foi professor do antigo IUPERJ (2003–2010) e é, desde 2010, professor titular de Ciência Política do IESP-UERJ. Coordena o LEMEP, o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e o Observatório do Legislativo Brasileiro (OLB).
Cientista social, mestre em Sociologia pela UFPR e doutoranda em Sociologia no IESP-UERJ, com experiência em relações de consumo e estratégias de comunicação. Tem formação em UX Research e em gestão e monitoramento de redes sociais, mídias digitais e estratégias eleitorais. Atua em pesquisas de mercado e campanhas políticas e conduz moderações e análises de grupos focais e entrevistas em profundidade.
Mestre em Ciência Política pelo IESP-UERJ. Tem experiência em planejamento e desenvolvimento de sistemas computacionais de pequeno e médio porte e em manutenção de servidores web, com especialização em modelagem e implementação de bancos de dados relacionais.
Mestrando em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador do INCT ReDem e dos grupos de pesquisa NUSP e Observatório das Elites, ambos vinculados à UFPR. Dedica-se à representação política parlamentar e à metodologia científica, com experiência no uso de inteligência artificial na pesquisa e na construção e análise de bancos de dados prosopográficos.

O Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem) é um centro de pesquisa sediado no Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR), financiado pelo CNPq e pela Fundação Araucária.
Reunindo mais de 50 pesquisadoras(es) de mais de 25 universidades no Brasil e no exterior, o ReDem investiga, a partir de três eixos de pesquisa (Comportamento Político, Instituições Políticas e Elites Políticas) as causas e consequências da crise das democracias representativas, com ênfase no Brasil.
Sua atuação combina metodologias quantitativas e qualitativas, como surveys, experimentos, grupos focais, análise de perfis biográficos e modelagem estatística, produzindo indicadores e ferramentas públicas sobre representação política, qualidade da democracia e comportamento legislativo.
O objetivo central do ReDem é gerar conhecimento científico de alto impacto e produzir recursos técnicos que auxiliem cidadãos, jornalistas, formuladores de políticas e a comunidade acadêmica a compreender, monitorar e aperfeiçoar a representação política democrática no Brasil.

