


O Monitor do Debate Público (MDP) acompanha, semana a semana, como diferentes segmentos do eleitorado brasileiro reagem a temas importantes da agenda pública. A análise se apoia no Painel de Monitoramento de Tendências (POMT), metodologia desenvolvida pela equipe do LEMEP (IESP-UERJ) que opera por meio de grupos focais contínuos no WhatsApp, com participantes selecionados e moderação profissional.
Para o ano eleitoral de 2026, renovamos o quadro de participantes e ampliamos de cinco para seis o número de grupos focais contínuos no WhatsApp. O antigo grupo de eleitores flutuantes deu lugar a dois grupos de indecisos — conservadores e progressistas. Na maioria das eleições, os indecisos cumprem papel decisivo: por serem mais propensos a mudar de opinião, com frequência definem o resultado.
O projeto conta com 50 participantes, distribuídos em grupos com as seguintes características:
BC – Bolsonaristas Convictos: votaram em Bolsonaro no segundo turno de 2022, pretendem votar em Flávio Bolsonaro em 2026, desaprovam o atual governo e aprovam os atos de 8 de janeiro.
BM – Bolsonaristas Moderados: votaram em Bolsonaro no segundo turno de 2022, desaprovam o atual governo e desaprovam os atos de 8 de janeiro.
IC – Indecisos Conservadores: votaram em Bolsonaro ou em branco/nulo no segundo turno de 2022, estão indecisos quanto ao voto de 2026 e se posicionam mais à direita na escala ideológica.
IP – Indecisos Progressistas: votaram em Lula ou em branco/nulo no segundo turno de 2022, estão indecisos quanto ao voto de 2026 e se posicionam mais à esquerda na escala ideológica.
LD – Lulodescontentes: votaram em Lula no segundo turno de 2022 e reprovam a atual gestão, mas ainda assim pretendem votar em Lula em 2026.
LL – Lulistas: votaram em Lula no segundo turno de 2022, pretendem votar em Lula em 2026 e aprovam a atual gestão.
Evangélicos: grupo virtual formado pela agregação das falas dos participantes evangélicos dos demais grupos, com o objetivo de captar tendências específicas desse contingente demográfico.
Todos os grupos foram compostos de modo a reproduzir, em proporções próximas às da população brasileira, variáveis como sexo, idade, cor/raça, renda, escolaridade, região de moradia e religião.
Nossa metodologia permite que os participantes respondam aos temas no momento que lhes for mais conveniente — liberdade inexistente nos grupos focais tradicionais, presos à sincronia do roteiro conduzido pelo mediador. Ao se acomodar à rotina de cada participante, o instrumento reduz a artificialidade da coleta e gera resultados mais próximos das interações reais do cotidiano.
Cabe salientar que os resultados derivam de metodologia qualitativa, voltada à análise de narrativas, argumentos e opiniões. Ainda que eventualmente quantificados, não possuem validade estatística: devem ser lidos como dado indicial.
O sigilo dos dados pessoais dos participantes é integralmente garantido. Todos consentiram previamente com a divulgação dos resultados, desde que preservado o anonimato.

| Bolsonaristas Convictos (BC) | Bolsonaristas Moderados (BM) | Indecisos Conservadores (IC) | Indecisos Progressistas (IP) | Lulodescontentes (LD) | Lulistas (LL) | Evangélicos | |
|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Casos de Feminicídio | Predominou a percepção de que houve tanto aumento dos casos quanto da visibilidade, com forte crítica à ineficácia das leis e do Estado. | Para o grupo, o principal aumento foi na visibilidade midiática, nos registros e nas denúncias, mais do que nos casos em si. | Os participantes apresentaram maior dispersão de opiniões, alternando entre aumento dos casos, maior visibilidade ou ambos simultaneamente, com recorrentes críticas à atuação institucional. | Predominou a ideia de que o feminicídio sempre existiu e hoje é mais visível, com valorização do papel das leis, da denúncia e do debate público no enfrentamento do problema. | Para o grupo, houve aumento tanto dos casos quanto da visibilidade, combinando reconhecimento estrutural do problema com mudanças de comportamentais recentes. | Para os participantes, o feminicídio sempre existiu e o principal aumento foi na visibilidade e no debate, aparecendo de forma secundária a percepção de crescimento dos casos. | Os participantes elaboraram respostas alinhados com seus grupos. |
| Combate à violência contra mulheres | O grupo se posicionou majoritariamente a partir de uma lógica punitiva, com ênfase no endurecimento das leis e na aplicação de penas mais severas. | Houve uma abordagem mais equilibrada, combinando a defesa de maior rigor na aplicação das leis com a valorização de ações preventivas, especialmente por meio da educação desde a infância. | O grupo se organizou majoritariamente em torno de uma crítica à ineficiência do Estado, defendendo leis mais rigorosas e mais bem aplicadas. | Os participantes priorizaram políticas públicas de educação e o funcionamento das medidas protetivas, com presença de redes de apoio às vítimas mais efetivas. | Houve defesa da educação e a mudança cultural como estratégias relevantes, somadas a melhor aplicação das leis existentes. | O grupo enfatizou a necessidade de campanhas de conscientização, educação e incentivo à denúncia, unidos a ampliação de mecanismos de proteção às vítimas. | As respostas desse segmento acompanharam os padrões já observados nos respectivos grupos aos quais pertenciam. |
| Voto em mulheres | O voto foi orientado principalmente por critérios como competência, preparo e propostas, com o gênero ocupando um papel secundário. Para alguns, a presença feminina poderia contribuir para ampliar a pauta. | Houve maior reconhecimento de que mulheres tendem a dar mais atenção ao tema da violência de gênero. Ainda assim, esse apoio foi acompanhado pela valorização do mérito e da qualificação, mantendo o gênero como fator secundário. | A decisão de voto apareceu ancorada sobretudo em propostas, valores e alinhamento político, somados a provas de competência política. A questão do gênero foi secundarizada. | Houve apoio mais consistente à ideia de que mais mulheres ampliam a visibilidade e o avanço dessas pautas. Ao mesmo tempo, destacou-se a importância de coerência, compromisso e atuação concreta. | Predominou a visão de que a maior presença feminina pode favorecer políticas públicas voltadas às mulheres. No entanto, esse efeito foi condicionado à atuação efetiva das candidatas e à existência de propostas claras. | O grupo adotou uma posição favorável à ideia de que a maior presença de mulheres na política pode contribuir para a ampliação das pautas debatidas, mas com forte ênfase na condicionalidade de compromisso das candidatas com essas agendas. | Os participantes elaboraram respostas alinhados com seus grupos. |


De forma geral, houve uma convergência bastante significativa entre os diferentes grupos quanto ao diagnóstico do fenômeno do feminicídio. Predominou a percepção de que a violência contra a mulher não é recente, mas sim um problema histórico e estrutural da sociedade brasileira, que sempre esteve presente, ainda que muitas vezes invisibilizado. Nesse sentido, a principal mudança apontada pelos participantes não foi necessariamente a origem ou surgimento do fenômeno, mas sim a forma como ele passou a ser percebido, nomeado e discutido publicamente.
Esse consenso se estruturou especialmente em torno da ideia de que houve um aumento expressivo da visibilidade, impulsionado pelas redes sociais, pela cobertura midiática, pela criação de leis específicas e pela ampliação dos canais de denúncia. A maior circulação de informações e o fortalecimento do debate público foram interpretados como fatores que contribuíram para tornar o problema mais evidente, ampliando a consciência social e incentivando denúncias. Mesmo entre aqueles que percebem crescimento nos casos, houve um reconhecimento transversal de que a visibilidade atual desempenha papel central na forma como o feminicídio é compreendido hoje.
"As redes sociais tem ajudado muito na visibilidade dos casos de feminicio. Podemos ver que agora pessoas jovens debatem sobre, fazem campanhas sociais de conscientização e cobram as leis. Casos de feminicio sempre foram um problema, no brasil, cerca de 3 a 4 mulheres são mortas por dia por violência domestica, discriminação, e outras razões." (BC, 62 anos, cirurgião dentista, SP)
"Eu acho que mais aumentou foi a forma que estão indentificando os casos. Antigamente, muitas mortes de mulheres eram registradas apenas como 'briga de casal' ou crime comum. Com as novas leis e o debate na internet, passaram a dar o nome correto: feminicídio. O debate cresceu porque a sociedade decidiu que não dá mais para aceitar essa realidade em silêncio." (IC, 38 anos, coordenadora , SP)
"Para mim os números sempre foram altos e a violência sempre aconteceu. Acontece que agora mais mulheres estão denunciando e a sociedade também está ficando mais consciente e denunciando mais. Antigamente, esse tipo de crime era acobertado por todos, pois acreditavam que em briga de marido e mulher não deveria ter a interferência de terceiros" (IC, 30 anos, educador museal, RJ)
"Eu acredito que os casos de feminicídio sempre estiveram presente na sociedade, por outro lado, antigamente pouco se falava no assunto. Hoje em dia, com a notoriedade que se tem, a visibilidade e o debate da causa aumentaram, e na verdade é necessário que cada vez mais seja abordado." (IP, 18 anos, autônoma, SP)
"Penso que houve um aumento do debate e da visibilidade sobre a violência contra a mulher e os casos de feminicídio, devido ao maior número de notificações e registros pelos órgãos oficiais e de imprensa, assim como maior empoderamento feminino para oferecer denúncia diante das agressões. Ao mesmo tempo que aumentou a discussão sobre o tema, principalmente nas redes sociais, com grupos de defesa dos direitos das mulheres de um lado e de outro os que reforçam a valorização de uma cultura machista do tipo red pill." (LD, 29 anos, professora, RJ)
"Não realidade sempre ocorreu o feminicidio. Só que agora mesmo de um tempo pra cá que teve a repercussão maior.Muito pouco se falava ,mais muito acontecia muitas mulheres foram mortas,sem ao menos que a gente soubesse." (LL, 61 anos, administrador, PR)

Embora tenha havido convergência no diagnóstico geral do fenômeno, as diferenças entre os grupos se tornaram mais evidentes quando os participantes passaram a explicar as causas e quais fatores contribuem para sua persistência.
Num primeiro eixo, concentraram-se falas que atribuíram o problema principalmente à fragilidade das leis, à impunidade e à ineficiência do Estado. Nessa perspectiva, o feminicídio foi interpretado como consequência de um sistema que não pune adequadamente os agressores, não previne a violência e falha na proteção das vítimas. Esse tipo de explicação apareceu com maior frequência entre bolsonaristas convictos e parte dos moderados e indecisos conservadores, mas não se restringiu a esses grupos. Ainda assim, não se tratou de um posicionamento exclusivo, sendo frequentemente combinado com outras leituras.
"Os casos de feminicidios aumentaram ao longo dos últimos anos ao extremo. Infelizmente a maioria das vítimas se calaram antes de serem mortas, por medo dos agressores, e também por saber que as leis em nosso país não funcionam.""" (BC, 47 anos, administradora, BA)
"Agora aqui pra nós, tambem o governo brasileiro tem sua parcela de culpa. Tem que acabar com esse negócio de progressão de pena por bom comportamento, prisão domiciliar, saidinhas e afins. No Brasil não tem condenações mais severas, tem que ter pena perpetua ou pena de morte, mas não, são processos que demoram até o julgamento. Qual o problema de ter pena perpetua ou pena de morte? A Constituição? Muda a Constituição. A polícia provou, juiz faz o julgamento e dá a sentença. Fim. Um homem que que faz isso tem que estar ciente de que sua ação vai fazer com que mofe na cadeia e de preferência nas piores condições! Duvido que numa realidade dessa, essas ações não vão diminuir.""" (BC, 39 anos, auxiliar de vida escolar, SP)
"Pelo que tenho visto nas notícias e relatórios recentes, sim, parece que os casos de feminicídio aumentaram. É algo bem preocupante, porque mostra que a violência contra a mulher ainda é um problema sério no país e que ainda falta muita prevenção e proteção, sistema é ruim demais e não toma providência correta ninguém é preso nesse país é bizarro isso .." (BM, 29 anos, advogada, SP)
"O que tem que fazer para diminuir essa violência absurda é os políticos trabalharem sério e ser acertivo nas Leis que rege esse país, até porque nossa justiça tem que seguir a lei, e a lei é a grande corda bamba desse problema e os políticos são os vilões da história. No entanto, a população é quem sofre e as mulheres paga o pato." (IC, 30 anos, autônoma, SP)
"Na minha opinião,não é visibilidade, estão aumentando mesmo,tá um mata ,mata de mulheres por motivos banais,e graça a essas leis que são brandas demais. Porque em outros países não vemos isso,porque lá as leis funcionam,e não passa não em cabeça de bandidos. Não tem nada ver,com o aumento de atenção,isso realmente é sério,não adianta debater o tema,e as leis continuar,a mesma." (LD, 49 anos, vigilante, MT)

"Acredito que os casos de feminicídio aumentaram, mas também houve muito mais visibilidade sobre o tema. Hoje a mídia, as redes sociais e as leis específicas fazem com que esses crimes sejam mais denunciados e discutidos. Por isso, além do aumento dos casos, o debate e a atenção da sociedade também cresceram bastante." (IP, 28 anos, customer care analist, SP)
"Acredito que as duas coisas aumentaram; o aumento de de casos e de notícias sobre. Percebo que a cada dia que se passa o amor do ser humano pelo outro se reduz a ponto de matar o outro por nada e a vida das milhares desde os antigos tempos sempre foi colocado numa posição de inferioridade sendo vista apenas para procriar e cuidar das casa e até hoje vemos falas de homens e pensamentos dessa forma. Acredito também que com o mundo mais conectado e o uso da internet possibilitam as informações circularem de maneira mais rápida, assim como as mulheres estão cansadas de serem mortas todos os dias por seus companheiros ou por simplesmente serem mulheres.""" (LD, 30 anos, maquiadora, RJ)
"Penso que houve um aumento do debate e da visibilidade sobre a violência contra a mulher e os casos de feminicídio, devido ao maior número de notificações e registros pelos órgãos oficiais e de imprensa, assim como maior empoderamento feminino para oferecer denúncia diante das agressões. Ao mesmo tempo que aumentou a discussão sobre o tema, principalmente nas redes sociais, com grupos de defesa dos direitos das mulheres de um lado e de outro os que reforçam a valorização de uma cultura machista do tipo red pill." (LD, 29 anos, professora, RJ)
"Além do aumento do debate e visibilidade no tema feminicídio houve aumento nos casos, isso se deve a falta de interação social, cada vez mais jovens e alguns adultos estão perdendo costumes de conduta social pela virtualização da sociedade além do vício em pornografia e grupos de ódio a mulher assim contaminando uma parcela da população" (LL, 59 anos, educador social, CE)


Com maior presença entre bolsonaristas convictos, moderados e indecisos conservadores, predominou a percepção de que a violência contra a mulher estaria diretamente associada à impunidade e à fragilidade na aplicação das normas existentes, o que levaria à defesa de punições mais severas e de um sistema de justiça mais ágil e rigoroso. Nesse enquadramento, a solução para o problema foi frequentemente associada à capacidade do Estado de impor sanções mais duras e garantir seu cumprimento efetivo, funcionando como elemento dissuasório para os agressores.
Além do aumento das penas, destacou-se a demanda por maior efetividade das medidas já previstas, especialmente no que diz respeito ao cumprimento de decisões judiciais e à atuação das instituições de segurança. Houve recorrência na ideia de que leis existem, mas não funcionam na prática, seja pela morosidade do sistema, seja pela ausência de fiscalização e resposta imediata.
Ainda que mais dominante entre segmentos à direita, esse eixo também atravessou grupos mais ao centro e à esquerda, ainda que articulado a outras dimensões. Nesses casos, o endurecimento das leis apareceu menos como solução única e mais como componente necessário dentro de um conjunto mais amplo de políticas. Ainda assim, a convergência em torno da necessidade de reduzir a impunidade e tornar o sistema mais eficaz indica que este foi um dos pilares mais compartilhados entre os diferentes perfis analisados.
"Creio que se as leis fossem mais severas e se fosse dado realmente aquela importância para a violência contra a mulher, muitas coisas mudariam… pois vemos que, normalmente o cidadão não tem medo e nem pensa nas consequências na hora de agredir uma mulher, pois sabemos que na maioria das vezes fica impune." (BC, 29 anos, analista de sistemas, PA)
"""Pode até parecer um copia e cola da minha mensagem anterior, mas é o que falei anteriormente, tem que acabar com esse negócio de progressão de pena por bom comportamento, prisão domiciliar, saidinhas e afins. No Brasil não tem condenações mais severas, tem que ter pena perpetua ou pena de morte... tem que assustar e gerar o medo de que eles vão perder a vida.""" (BC, 39 anos, auxiliar de vida escolar, SP)
"""Na minha opinião deveria ter mais seriedade, reforçar a lei e dar o suporte necessário a vítima pra começar a dar certo, e precisa ter mais propagandas visíveis incentivando a denúncia...""" (IC, 29 anos, professor, RJ)
"Na minha opinião, eu acredito que teria que começar criando leis mais severas... acho que poderia ser um bom meio de fazer a medida protetiva funcionar melhor, mais punição prós que chegam a cometer o crime." (IC, 24 anos, advogada, RO)
"Na verdade o problema não é a pena, e sim o sistema como um todo... chega na audiência, eles conseguem uma brecha na lei e conseguem até responder em liberdade." (BM, 28 anos, vendedora, AL)
"Na minha opinião a pena deveria ser maior para casos de feminicídio, e as leis deveriam ser bem mais rigorosas. As medidas protetivas deveriam ser seguidas a risca..." (LL, 38 anos, representante de atendimento, AL)
"Na minha opinião somente campanhas contra não surtem efeito sozinhas... o principal deve ser o endurecimento da lei que aborda o feminicídio." (LD, 48 anos, servidor público, PA)

Majoritariamente entre lulistas, indecisos progressistas e lulodescontentes, os participantes destacaram que a redução da violência depende mais da proteção imediata das vítimas quanto da atuação preventiva sobre suas causas, especialmente por meio da educação. Nesse sentido, emergiu a percepção de que o problema não se resolve apenas com leis mais duras, mas com a construção de um ambiente social que iniba a violência antes que ela ocorra.
As respostas enfatizaram a importância de redes de acolhimento e suporte multidimensional, incluindo abrigo, apoio psicológico, assistência financeira e oportunidades de autonomia, ao mesmo tempo em que defenderam ações educativas desde a infância, voltadas à promoção de valores como respeito, igualdade e controle emocional. A ideia de que a violência está ligada a padrões culturais e comportamentos aprendidos apareceu de forma recorrente, reforçando a necessidade de atuar na formação de crianças e jovens, bem como na conscientização da sociedade como um todo. Também foi destacada a importância de campanhas públicas e do debate em diferentes espaços sociais, como escolas, famílias e comunidades.
"Acredito que aumentar o apoio às mulheres, com mais delegacias especializadas e locais seguros para acolhimento. Incentivar cada vez mais as denúncias e não se calar diante da violência." (IC, 38 anos, coordenadora, SP)
"Também ações pela sociedade, introduzir esse tema em novelas, em campanhas, e também aumentando a pena na legislação..." (BM, 41 anos, turismólogo, PE)
"Terceiro, apoio pra mulher sair da situação. muitas não denuncia pq depende financeiramente ou não tem pra onde ir, então abrigo, ajuda financeira e suporte psicológico fazem diferença real." (IP, 32 anos, técnico em logística, SP)
"Precisa ser discutir essa pauta desde a escola... Outro passo importante é o fortalecimento de uma rede de apoio para as vítimas..." (IP, 22 anos, assistente administrativa, PE)
"Na minha opinião, tem que intensificar as campanhas contra a violência a mulher com apoio psicológico financeiro e segurança para que a mulher não volte para o agressor." (LL, 56 anos, assessora administrativa, RJ)
"Eu acredito q deveria ser ensino auto defesa nas escolas para as meninas, combater o machismo nas crianças desde pequenas, mais acolhimento para as mulheres que sofreram violência..."" (LD, 47 anos, professora, MT)
"Penso que fundamentalmente precisamos humanizar a formação que damos aos nossos filhos e filhas... precisamos que os políticos apresentem propostas de políticas públicas que respeitem, defendam os direitos das mulheres..." (LD, 29 anos, professora, RJ)
"Creio que uma vez que já temos legislação específica... seria o caso de massificar o incentivo às denúncias... bem como ampliar ações que envolvam tecnologias..." (LL, 28 anos, vendedora, PA)


Entre os segmentos mais à direita, especialmente entre bolsonaristas convictos e parte dos bolsonaristas moderados, a ideia de que eleger mais mulheres poderia favorecer a priorização de pautas como o combate ao feminicídio e à violência contra a mulher foi, em geral, aceita, mas quase sempre sob forte relativização. Ou seja, não houve rejeição frontal à hipótese, mas sim uma tendência a tratá-la como possibilidade condicionada, e não como consequência esperada da maior presença feminina na política. Nesses grupos, apareceu com frequência a percepção de que o simples aumento do número de mulheres eleitas não seria suficiente para garantir mudanças concretas, já que a atuação política foi entendida como dependente de fatores mais amplos, como correlação de forças, votações internas, compromisso individual das parlamentares e capacidade efetiva de transformar pautas em ação institucional.
Assim, o gênero foi reconhecido como elemento potencialmente relevante, mas insuficiente em si mesmo. Mesmo quando admitiam que mulheres poderiam trazer mais atenção ao tema, os participantes deslocavam rapidamente o centro da avaliação para outros critérios, como competência, mérito, preparo, honestidade e abrangência das propostas. Em vez de uma defesa enfática da representação feminina como valor político em si, predominou uma leitura segundo a qual a legitimidade da candidatura depende de atributos individuais e resultados esperados.
"Acredito que eleger mais mulheres pode aumentar a chance de combate ao feminicídio e violência contra a mulher, porém depende muito da candidata e do real compromisso dela, não é qualquer pessoal que faria real diferença. O que me motiva á votar nos candidatos é a competência, preparo, as ideias e o histórico, sendo homem ou mulher." (BC, 48 anos, do lar, SP)
"Pode sim melhorar porém tudo é questão de votação interna não adianta ter várias mulheres lutando pelo nosso direito e chega na câmera e a votação é mais baixa que outra pauta, para ter meu voto não engloba só pauta sobre mulheres vai muito além disso aí você elege uma mulher que só fala sobre feminicidio e esquece as outras pautas prestada não vejo como melhoria nenhuma." (BC, 29 anos, desenvolvedor web, SP)
"Acredito que eleger mais mulheres ajuda muito a colocar o combate à violência feminina no topo da lista! Mas, no fim das contas, o voto deveria ser para quem mostra que é competente e que vai realmente resolver os problemas da população" (BC, 29 anos, analista de sistemas, PA)
"Para mim, não importa se o candidato é homem ou mulher. O que importa é a capacidade de trabalhar em função das necessidades, interesses e direitos do povo brasileiro, com foco em resultados. Quanto à honestidade e princípios, importante ressaltar que são características imprescindíveis." (BC, 44 anos, do lar, MT)
"Nao me impede em nada, inclusive apoio totalmente mulheres em liderancas, gestoras, em cargos majoritarios, desde QUE TENHAM conhecimento tecnico, especifico e que seja colocada ou investida por MERITOCRACIA, da mesmissima forma que um homem deveria ter. Muitas vezes e dou a mao a palmatoria, mulheres sao mais eficazes do que os homens em varios cargos." (BM, 32 anos, gerente de vendas, PA)
"Com certeza eleger mulheres aumenta as pautas como combate ao feminicidio e violência contra elas. Afinal elas são as que definitivamente sofrem com isso e tem a maior propriedade para falar sobre os assuntos. Não tenho nada contra votar em candidatas mulheres. A principal análise a ser feita serão suas propostas e medidas de governo." (BM, 72 anos, pensionista, RJ)

Entre os grupos mais progressistas — especialmente indecisos progressistas, lulistas e parte dos lulodescontentes —, o gênero assumiu um papel mais central na forma de interpretar a questão. Nesses segmentos, a presença feminina na política foi mais diretamente associada à experiência vivida, à identificação coletiva e à ideia de representação substantiva, em que mulheres seriam capazes de compreender, formular e priorizar com maior propriedade pautas relacionadas à violência de gênero. Diferentemente dos grupos mais conservadores, onde o argumento apareceu de forma mais abstrata ou condicional, aqui a relação entre “ser mulher” e “defender essas pautas” foi construída de maneira mais concreta, ancorada na vivência cotidiana, no reconhecimento de vulnerabilidades compartilhadas e na percepção de que essas experiências tendem a influenciar a atuação política.
Ao mesmo tempo, esse maior peso atribuído ao gênero não se traduziu em apoio automático ou acrítico às candidatas mulheres. As falas indicaram que, embora a representatividade fosse valorizada como elemento importante — inclusive como forma de ampliar voz, visibilidade e avanço de direitos —, ela, por si só, também não substituía critérios como coerência, firmeza de posicionamento e capacidade de atuação. Assim, embora o gênero reforçasse a legitimidade e a expectativa de engajamento com a pauta, a decisão de voto permaneceu condicionada à avaliação concreta das propostas e da trajetória das candidatas.
"Pra mim, faz total sentido ter mais mulheres em posição de nos defender, de falar por nós, de agir por nós. Seria de grande melhora se houvessem mais, apoio muito." (IP, 37 anos, auxiliar de creche, RJ)
"Pode aumentar sim, pq mulher geralmente vive isso mais de perto ou conhece alguém que já passou por situação assim, então tende a dar mais atenção pra essas pautas." (IP, 32 anos, técnico em logística, SP)
"Acredito que só aumenta se as mulheres que forem votadas estiverem de fato dispostas a lutar por isso, pois temos muitas mulheres que ocupam esses cargos e não fazem nada." (LL, anos, )
"eu acho que depende da mulher. Só aumente se for uma mulher que dê visibilidade a esse tipo de pauta." (LL, 27 anos, operador de telemarketing, BA)
"Penso que eleger mais mulheres pode ser um caminho de ter mais políticas públicas direcionadas às mulheres, pensadas por elas mesmas e não pelos homens." (LD, 29 anos, professora, RJ)
"Eu acredito que sim, pq mulheres vivem realidades parecidas e tem medos iguais, portanto, acredito q tendo mais mulheres no poder, elas podem sim pensar mais nas questões femininas e procurar soluções." (LD, 47 anos, professora, MT)
"O que me motiva é justamente isso, buscar candidatas que possam ajudar as questões femininas, principalmente quanto a violência." (LD, 47 anos, professora, MT)

A semana trouxe a temática do aumento dos casos de violência contra as mulheres e feminicídio ao debate. A análise conjunta das três questões mostrou um padrão claro: houve convergência no reconhecimento do problema, mas diferenças na forma de interpretá-lo e enfrentá-lo.
Na primeira questão, mais voltada ao diagnóstico, independentemente do posicionamento político, de forma geral, os participantes reconheceram que o feminicídio não é um fenômeno recente, mas histórico e persistente, e que passou a ganhar maior visibilidade nos últimos anos. O aumento do debate público, das denúncias e da cobertura midiática foi amplamente percebido como um elemento central para a compreensão atual do problema, ainda que muitos também tenham indicado a percepção de crescimento real dos casos. Esse consenso indica, sobretudo, que há uma base comum de entendimento sobre a gravidade do assunto.
As diferenças entre os grupos apareceram principalmente na forma de explicar o problema. Argumentos centrados em falhas nas leis, impunidade e ineficiência do Estado foram mais frequentes entre bolsonaristas convictos, parte dos bolsonaristas moderados e indecisos conservadores. Já leituras de caráter estrutural, ligadas ao machismo, às desigualdades de gênero e às mudanças nas relações sociais recentes, apareceram com mais frequência entre lulistas, indecisos progressistas e parte dos lulodescontentes. Ainda assim, essas associações não foram exclusivas nem rígidas. O que se observou foi uma diferença de ênfase, em que determinadas leituras se destacaram em alguns segmentos, mas também apareceram, ainda que com menor frequência, nos demais.
Esse mesmo padrão se repetiu nas propostas de enfrentamento. As diferenças entre os grupos apareceram principalmente na prioridade dada aos caminhos de solução, mas sem que fossem excludentes ou opostas. Parte relevante dos participantes, especialmente entre segmentos mais à direita e indecisos conservadores, estruturou suas respostas a partir de uma lógica centrada no endurecimento das leis e na necessidade de reduzir a impunidade, entendida como fator que contribui para a continuidade da violência. Já entre lulistas, indecisos progressistas e lulodescontentes, ganhou mais força uma abordagem que combina proteção efetiva às vítimas, fortalecimento de redes de apoio – para que mulheres possam sair de relacionamentos abusivos – e ações preventivas, especialmente por meio da educação e da mudança de padrões culturais machistas. Nesse grupo, também apareceram debates sobre a efetividade das políticas já existentes, com a percepção de que o Brasil não carece necessariamente de novas leis, mas de maior capacidade de fiscalização e aplicação das mesmas.
Na última questão, independentemente do posicionamento político, houve também uma compreensão compartilhada de que a representação feminina pode influenciar a agenda pública, seja pela vivência, pela identificação ou pela maior sensibilidade ao tema.
Esse reconhecimento, no entanto, apareceu de forma condicionada. Em todos os segmentos, destacou-se a ideia de que o gênero, por si só, não garante compromisso com essas pautas. Os participantes ressaltaram a importância de propostas consistentes, histórico de atuação e capacidade de entrega. Assim, consolidou-se uma leitura em que a representação feminina é vista como uma oportunidade, mas sua efetividade depende da atuação concreta da representante, reforçando uma lógica de apoio não automático, baseada em critérios de desempenho político.
Mesmo com esse núcleo comum, os grupos se diferenciaram na forma de atribuir significado à representação feminina. Segmentos mais conservadores tenderam a adotar uma abordagem mais pragmática, em que a identidade de gênero tem menor peso diante de critérios como competência e propostas amplas. Já os grupos mais progressistas deram mais destaque à experiência e à representatividade, condicionados a posicionamentos genuínos de combate ao problema. Em conjunto, esses achados apontam para uma valorização crescente da presença feminina na política, particularmente entre progressistas, ainda que sustentada por uma lógica de apoio condicionado, em que identidade e desempenho precisam caminhar juntos para produzir efeitos eleitorais.
Avaliando o cenário eleitoral, os resultados mostram que a pauta da violência contra a mulher tem potencial de mobilização. Há espaço para candidaturas que consigam articular, de forma convincente, combate à impunidade, proteção efetiva às vítimas e ações preventivas, dialogando com diferentes perfis do eleitorado. No entanto, estratégias baseadas exclusivamente na identidade de gênero tendem a ter alcance limitado, já que o apoio à representação feminina está condicionado à entrega concreta e à credibilidade das candidatas. Ou seja, embora exista uma base comum de reconhecimento do problema, a disputa eleitoral tende a se concentrar menos na existência da pauta e mais em quem apresenta soluções mais claras, equilibradas e confiáveis para enfrentá-la.
É interessante notar que a enorme energia que a extrema-direita dedica a demonizar a chamada “ideologia de gênero”, marca criada com essa exata intenção, parece não ter surtido efeito muito relevante sobre a opinião do eleitorado pelo menos em relação a essa questão específica da violência contra a mulher. O quadro geral desse tema é de baixa polarização.


O Monitor do Debate Público (MDP) é um projeto do Laboratório de Estudos da Mídia e da Esfera Pública (LEMEP), sediado no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ (IESP-UERJ). Baseia-se no Painel de Monitoramento de Tendências (POMT), metodologia desenvolvida pela própria equipe.
O POMT permite monitorar de modo dinâmico a opinião pública e suas clivagens em torno de temas da agenda pública, preferências, valores e recepção de notícias, entre outros. Opera por meio de grupos focais contínuos no WhatsApp, com participantes selecionados e moderação profissional.
Como nos grupos focais tradicionais, o formato permite que o moderador aprofunde temas sensíveis, dificilmente acessíveis por pesquisas quantitativas ou questionários estruturados.
O caráter assíncrono, próprio da comunicação no WhatsApp, favorece respostas mais refletidas — vantagem tanto para a pesquisa social quanto para a eleitoral, já que o voto é também uma decisão que costuma exigir reflexão.
Sua continuidade temporal favorece situações deliberativas, em que cada participante é levado a elaborar suas razões em diálogo com as dos demais.
O celular é hoje o meio de comunicação mais acessível e disseminado. Por isso, participar dos grupos não exige computador nem que as pessoas interrompam suas atividades para interagir.
O MDP aplica o POMT à análise semanal do debate público brasileiro, segmentado em seis grupos de diferentes orientações ideológicas, da extrema direita à esquerda — recorte justificado por sua relevância demográfica no cenário atual.

Doutora em Ciência Política pelo IESP-UERJ. Coordenou o IESP nas Eleições, plataforma multimídia de acompanhamento das eleições de 2018. Foi consultora da UNESCO e coordenadora da área qualitativa em instituto de pesquisa de opinião e big data, atuando em campanhas eleitorais e pesquisas de mercado. Presta consultoria em desenho de pesquisa qualitativa e conduz moderações e análises de grupos focais e entrevistas em profundidade. Escreve no blog Legis-Ativo, do Estadão.
Mestre em Filosofia Política pela Unicamp e mestre e doutor em Ciência Política pela City University of New York (Graduate Center). Foi professor do antigo IUPERJ (2003–2010) e é, desde 2010, professor titular de Ciência Política do IESP-UERJ. Coordena o LEMEP, o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA) e o Observatório do Legislativo Brasileiro (OLB).
Cientista social, mestre em Sociologia pela UFPR e doutoranda em Sociologia no IESP-UERJ, com experiência em relações de consumo e estratégias de comunicação. Tem formação em UX Research e em gestão e monitoramento de redes sociais, mídias digitais e estratégias eleitorais. Atua em pesquisas de mercado e campanhas políticas e conduz moderações e análises de grupos focais e entrevistas em profundidade.
Mestre em Ciência Política pelo IESP-UERJ. Tem experiência em planejamento e desenvolvimento de sistemas computacionais de pequeno e médio porte e em manutenção de servidores web, com especialização em modelagem e implementação de bancos de dados relacionais.
Mestrando em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador do INCT ReDem e dos grupos de pesquisa NUSP e Observatório das Elites, ambos vinculados à UFPR. Dedica-se à representação política parlamentar e à metodologia científica, com experiência no uso de inteligência artificial na pesquisa e na construção e análise de bancos de dados prosopográficos.

O Instituto Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação Representação e Legitimidade Democrática (INCT ReDem) é um centro de pesquisa sediado no Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR), financiado pelo CNPq e pela Fundação Araucária.
Reunindo mais de 50 pesquisadoras(es) de mais de 25 universidades no Brasil e no exterior, o ReDem investiga, a partir de três eixos de pesquisa (Comportamento Político, Instituições Políticas e Elites Políticas) as causas e consequências da crise das democracias representativas, com ênfase no Brasil.
Sua atuação combina metodologias quantitativas e qualitativas, como surveys, experimentos, grupos focais, análise de perfis biográficos e modelagem estatística, produzindo indicadores e ferramentas públicas sobre representação política, qualidade da democracia e comportamento legislativo.
O objetivo central do ReDem é gerar conhecimento científico de alto impacto e produzir recursos técnicos que auxiliem cidadãos, jornalistas, formuladores de políticas e a comunidade acadêmica a compreender, monitorar e aperfeiçoar a representação política democrática no Brasil.

